<< poesias>>



" vinte anos! como tens doirados sonhos! "

                                                            [ poesias enviadas ]   [ enviar poesia ]  

 

A SAUDADE

É berço de mistério e d´harmonia

Seio mimoso de adorada amante:

A alma bebe nos sons que amor suspira

A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombria,

Os lábios convusivos estremecem;

E a vida foge ao peito...apenas tinge

As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo

Nossos lábios atrai a um bem divino:

Da amante o beijo é puro como as flores

E dela a voz é doce como um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,

Almas ardentes que a paixão palpita,

Dizei essa emoção que o peito gela

E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!

E como a névoa de falaz ventura

Que se estende nos olhos do poeta

Doira a amante de nova formosura!!

o poeta e a saudade -Álvares de Azevedo

         LEMBRANÇA DE MORRER      

No more! o never more!

                                                                                                                                                               Shelley

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito enlaçã á dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpepra demente.

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto o poento caminheiro...

Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro...

Como o desterro de minh´alma errante,

Onde fogo insensato a consumia,

Só levo uma saudade - é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.

So levo uma saudade - dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas...

É de ti, ó minha Mãe! pobre coitada

Que por minhas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda,

É pela virgem que sonhei!... que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!

Ó tu, que á mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se vivi...foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdadeira santa e nua,

Verei, cristalizar-se o sonho amigo...

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

filha do céu! eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito soltário

Na floresta dos homens esquecida

À sombra de uma Cruz! e escrevam nela:

- Foi poeta, sonhou e amou na vida. -

Sombras do vale, noites da montanha,

Que minh´alma cantou e amava  tanto,

Projetei o meu corpo abandonado

E no silêncio derramei-lhe um canto!

Mas quando preludia ave d´ourora

E quando, à meia-noite , o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri as ramas...

Deixai a lua pratear-me a lousa!

Àlvares de Azevedo

Pálida Inocência

Por que, pálida inocência,

Os olhos, teus em dormência

A medo lanças em mim?

No peito de minha mão

Que sonho do coração

Tremeu-te os seios assim?

E tuas falas divinas

Em que amor lânguida afinas

Em  que lânguido sonhar?

E dormindo sem receio

Por que geme no teu seio

Ansioso suspirar?

E tuas falas divinas

Em que amor lânguida afinas

E dormindo sem receio

Por que geme no teu seio

Ansioso suspirar?

Inocência ! quem dissera

De tua azul primavera

As tuas brisas de amor!

Oh! quem teus lábios sentira

E que trêmulo te abrira

Dos sonhos  a tua flor!

Quem te dera a esperança

De tua alma de criança,

Que perfuma teu dormir,

Quem dos sonhos  te acordasse,

Que num beijo t´embalasse

Desmaiada no sentir!

Quem te amasse! e um momento

Respirando o teu alento

Recendesse os lábios seus!

Quem lera, divina e bela,

Teu romance de donzela

Cheio de amor e de Deus!

Álvares de Azevedo

Lágrimas de Sangues


Ao pé das aras no clarão dos círios

Eu te devera consagrar meus dias;

Perdão, meu Deus! perdão

Se neguei meu Senhor nos meus delírios

E um canto de enganosas melodias

Levou meu coração!





Só tu, só tu podias o meu peito

Fartar de imenso amor e luz infinda

E uma Saudade calma;

Ao sol de tua fé doirar meu leito

E de fulgores inundar ainda

A aurora na minh`alma.





Pela treva do espírito lancei-me,

Das esperanças suicidei-me rindo...

Sufoquei-as sem dó.

No vale dos cadáveres sentei-me

E minhas flores semeei sorrindo

Dos túmulos no pó.





Indolente Vestal, deixei no templo

A pira se apagar — na noite escura

O meu gênio descreu.

Voltei-me para a vida... só contemplo

A cinza da ilusão que ali murmura:

Morre! — tudo morreu!





Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias

À alma que se perdeu bradar de novo:

Ressurge-te ao amor!

Malicento, da minhas agonias

Eu deixaria as multidões do povo

Para amar o Senhor!





Do leito aonde o vício acalentou-me

O meu primeiro amor fugiu chorando.

Pobre virgem de Deus!

Um vendaval sem norte arrebatou-me,

Acordei-me na treva... profanando

Os puros sonhos meus!





Oh! se eu pudesse amar!... — É impossível!

Mão fatal escreveu na minha vida;

A dor me envelheceu.

O desespero pálido, impassível

Agoirou minha aurora entristecida,

De meu astro descreu.





Oh! se eu pudesse amar! Mas não:

agora Que a dor emurcheceu meus breves dias,

Quero na cruz sangrenta

Derramá-los na lágrima que implora,

Que mendiga perdão pela agonia

Da noite lutulenta!





Quero na solidão — nas ermas grutas

A tua sombra procurar chorando

Com meu olhar incerto:

As pálpebras doridas nunca enxutas

Queimarei... teus fantasmas invocando

No vento do deserto.





De meus dias a lâmpada se apaga:

Roeram meu viver mortais venenos;

Curvo-me ao vento forte.

Teu fúnebre clarão que a noite alaga,

Como a estrrla oriental me guie ao menos

Té o vale da morte!





No mar dos vivos o cadáver bóia

— A lua é descorada como um crânio,

Este sol não reluz:

Quando na morte a pálpebra se engóia,

O anjo se acorda em nós — e subitâneo

Voa ao mundo da luz!





Do val de Josafá pelas gargantas

Uiva na treva o temporal sem norte

E os fantasmas murmuram...

Irei deitar-me nessas trevas santas,

Banhar-me na frieza lustral da morte

Onde as almas se apuram!





Mordendo as clinas do corcel da sombra,

Sufocando, arquejante passarei

Na noite do infinito.

Ouvirei essa voz que a treva assombra,

Dos lábios de minh`alma entornarei

O meu cântico aflito!





Flores cheias de aroma e de alegria,

Por que na primavera abrir cheirosas

E orvalhar-vos abrindo?

As torrentes da morte vêm sombrias,

Hão de amanhã nas águas tenebrosas

Vos rebentar bramindo.





Morrer! morrer! É voz das sepulturas!

Como a lua nas salas festivais

A morte em nós se estampa!

E os pobres sonhadores de venturas

Roxeiam amanhã nos funerais

E vão rolar na campa!





Que vale a glória, a saudação que enleva

Dos hinos triunfais na ardente nota,

E as turbas devaneia?

Tudo isso é vão, e cala-se na treva

— Tudo é vão, como em lábios de idiota

Cantiga sem idéia.





Que importa? quando a morte se descarna,

A esperança do céu flutua e brilha

Do túmulo no leito:

O sepulcro é o ventre onde se encama

Um verbo divinal que Deus perfilha

E abisma no seu peito!





Não chorem! que essa lágrima profunda

Ao cadáver sem luz não dá conforto...

Não o acorda um momento!

Quando a treva medonha o peito inunda,

Derrama-se nas pálpebras do morto

Luar de esquecimento!





Caminha no deserto a caravana,

Numa noite sem lua arqueja e chora...

O termo... é um sigilo!

O meu peito cansou da vida insana;

Da cruz à sombra, junto aos meus, agora

Eu dormirei tranqüilo!





Dorme ali muito amor... muitas amantes,

Donzelas puras que eu sonhei chorando

E vi adormecer.

Ouço da terra cânticos errantes,

E as almas saudosas suspirando,

Que falam em morrer...





Aqui dormem sagradas esperanças,

Almas sublimes que o amor erguia...

E gelaram tão cedo!

Meu pobre sonhador! aí descansas,

Coração que a existência consumia

E roeu um segredo! ...





Quando o trovão romper as sepulturas,

Os crânios confundidos acordando

No lodo tremerão.

No lodo pelas tênebras impuras

Os ossos estalados tiritando

Dos vales surgirão!





Como rugindo a chama encarcerada

Dos negros flancos do vulcão rebenta

Goltejando nos céus,

Entre nuvem ardente e trovejada

Minh`alma se erguerá, fria, sangrenta,

Ao trono de meu Deus...





Perdoa, meu Senhor! O errante crente

Nos desesperos em que a mente abrasas

Não o arrojes p`lo crime!

Se eu fui um anjo que descreu demente

E no oceano do mal rompeu as asas,

Perdão! arrependi-me!

Álvares de Azevedo


<<breve mais poesias>>